UM HOMEM DE VERDADE

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   Antecipando a primavera, dias amenos alegraram a aldeia de São Sebastião do Rio de Janeiro no fim de semana, arrasando em quesitos variados: sol ameno, trânsito relativamente tranquilo, mar de almirante, céu de brigadeiro e reunião da Turma sob a direção-geral do bandleader Pimpim.  Há muito se consagrou cláusula pétrea segundo a qual o estimado Duque da Avenida Paula e Souza exerce irresistível fascínio sobre os súditos da gloriosa Nação72 acantonados na urbe carioca.O girar da roda do tempo tem confirmado o carisma do Presidente, que sexta-feira passada imperava no sacrossanto recanto da Praia Vermelha.

    Grassa o politicamente correto. Entre a autenticidade selvagem e a hipocrisia farisaica, esta se tornou bem mais palatável aos ambientes supostamente civilizados.  Até obras famosas de Agata Christie foram adaptadas a novas exigências comportamentais - vide “O Caso dos dez negrinhos”, ora renomeada ”E não sobrou nenhum”-.  Embora personagem de idos imemoriais, quando expressar sentimentos não se condicionava a freios ideológicos cortejo a modernidade, o que me levou a comparecer ao CMPV convicto da conversão dos caros confrades lá presentes aos padrões vigentes da convivência dita bem-educada. Fui emboscado.     

    Acompanhava-me o Marcelo, amigo dileto, pai de uma das melhores amigas de minha filha caçula no colégio, ex-aluno do CMRJ, onde realizou os estudos secundários completos a partir dos dez anos de idade. Foi reprovado no exame de vista à AMAN, fez a EFOM, graduou-se em engenharia mecânica e há anos trabalha numa empresa multinacional.  Quando soube que eu e o Viga, seu primeiro e inesquecível Cmt Cia éramos da mesma Turma, e sabedor de nossas reuniões, demonstrou interesse em participar de uma delas. Logo ao chegar, foi repetidamente perguntado se seria “meu sobrinho”, numa evidente demonstração escancarada de bullying coletivo. Não satisfeito, de bate-pronto do alto de sua autoridade presidencial o Prez Pimpa indagou-lhe se era “meu namorado”. Pano rápido.UM HOMEM DE VERDADE

     Quando determinadas licenciosidades são verbalizadas por cavalarianos, ou infantes, justificam-se pela rusticidade imposta à estirpe dos ferozes combatentes. Tornam-se estranhas, no entanto, quando oriundas de artilheiros, seres sabidamente dotados de inteligência superior, situados num patamar de civilidade anos-luz acima dos demais confrades castrenses. Chistes, impropérios, bazófias e palavras chulas toleráveis a casca-grossas das baias soam inaceitáveis a requintados seguidores de Mallet, estarrecendo eventuais circunstantes desses arroubos inabituais. Cambaleante pela recepção tipo MMA, longe imaginava que o pior ainda estava para acontecer.

    Depois de brinde regado a vinho trazido pelo Marcelo, ele já enturmado, o cenário parecia pacificado. Parecia, pensei. De repente, irrompe no recinto o gaudério mais ousado dos pampas, o jurisconsulto mais vibrante dos tribunais, o legendário infante-jihadista Dr Boita B, que surpreende o visitante pela retaguarda e sapeca-lhe simultâneos abraço e afetuoso ósculo de boas-vindas, deixando-o desconcertado.  Gargalhadas gerais descontraem a já descontraída reunião, que se estende além das dezessete horas, pontificando durante longos minutos considerações sobre a figura singular do ausente ex-Cad Triagem-Leme, ops, Cad 472 Ismael, alterego Boca, ou Bocão.

    Recolhido às culminâncias de cafofo no Babilônia-Urubú, sítio de recolhimento espiritual e meditação onde moro, pus-me a dissecar os motivos pelos quais pessoas aparentemente antenadas adotam atitudes reprováveis ao senso comum. Da profunda estranheza inicial logo migrei ao estágio intermediário da compreensão e, surpreso, ao de entusiasta desses cultores da autenticidade existencial.  Escolhi bizarrices ismaelinas  como matéria-prima de estudo principal.     

   O Boca fala o que pensa, sem processar a linguagem. É quase puro id primitivo, com lampejos ocasionais de superego. Arrisca-se a ser tachado de inconveniente, falastrão, mal educado, boquirroto e epítetos afins. Por outro lado jamais poderá ser acusado de falso, insincero, embusteiro ou enganador. Ele é o que é sem teatralização social da própria personalidade. Amado ou odiado, pouco se importa diante do excesso de maneirismos e convenções formais de condutas, pois se lixa para os discursos artificiais. Ao desprezar códigos de verbalização estratificados, expressando sem rodeios o que lhe vem à mente, talvez incorpore uma forma de sabedoria prática que o mantém jovial e serve de antídoto aos perigos corrosivos da faixa etária da Turma. Não sem razão, é adorado por subordinados, estimado por superiores hierárquicos e aclamado pelos pares.

   Abaixo a praga hipócrita do politicamente correto. Na figura do Bocão, ícone da resistência anticlichês comportamentais insinceros, homenageio alguns militantes tradicionais da rebeldia pela preservação da verdade opinativa: o meu querido guru Ivo Damerran Smith, a quem dirijo afetuosas saudações; o eminente Dr Boita B; o ilustre e talentoso bardo Cléo; o cumpádi Mário Augusto; o saudoso Bac do Flu e last but not least o brother Pimpa, malgrado a sua aristocrática formação de artilheiro. 

   Ao Bocão, e aos que expressam sem amarras o que pensam, assumindo os riscos de suas manifestações verbais, dedico estas humildes, sinceras palavras de admiração.

   Aleluia ao Falador-Geral da 1ª RM. Salve o eterno Cad 472 Bocão. Viva o corajoso confrade Ismael, um homem de verdade.          


Rio de Janeiro, 06 de setembro de 2014.

Dom Obá III, atendendo a apelos singelos dos preclaros Dr Lobo Moneró e Dr Boita B, aos quais rendo agradecimentos especiais pela generosidade de suas atenções a este modesto cabo das baias.


  PS 1. A assembleia foi bastante animada, valorizada pelas ilustres presenças bissextas do Bonato e do Alcântara. Debutou o Moraes, ex-aluno da Prep que não cursou a AMAN, hoje morador de Niterói. O NB esteve praticamente completo, tendo marcado ponto além dos confrades já mencionados: Arataca, o Barão de Vargem de Grande, espargindo contumaz alegria; Frischeng, direto de Santa Felicidade; Ivan Piranha, ostentando vasta cabeleira cor de prata e bigodón idem, dignos de galã mexicano; Herr Wollotein, acompanhado de vistosa barba grisalha; Jô May, com a simpatia habitual e Ângelo Kbça, verdadeira enciclopédia ambulante da Turma;   

 PS 2. O Marcelo adorou a reunião, prometendo voltar sempre que seus compromissos de trabalho o permitam;

 PS 3.Imbuído do espírito “homem de verdade”, quero mandar à PQP todos aqueles que porventura insinuarem possuir este afro-cavalariano “sobrinhos”, ou “namorados”.   Acautelem-se, detratores..{jcomments on}